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25/10/2015

Cisto Pilonidal


Cisto pilonidal é uma variante relativamente comum do cisto dermoide. Na grande maioria dos casos, a lesão se desenvolve na região terminal da coluna vertebral (região sacrococcigiana), bem no início do sulco que separa as duas nádegas, alguns centímetros acima do ânus. Embora esse seja o local mais frequente, o cisto pilonidal pode surgir também nas axilas, couro cabeludo e umbigo.

Quanto a sua estrutura, ele é formado por uma bolsa revestida por células epiteliais, que contém pelos, fragmentos de pele, glândulas sebáceas e glândulas sudoríparas em seu interior. O acúmulo desse material gera um processo inflamatório que pode apresentar sinais de infecção e acúmulo de pus, dando origem a um abscesso (abscesso pilonidal). Portanto, a palavra pilonidal, que significa “ninho de pelos”, define bem a doença, que acomete mais os homens jovens entre 15 e 30 anos.

Causas
As causas do cisto pilonidal ainda não foram totalmente definidas. No início, imaginava-se que fosse um problema congênito provocado por dobras de tecidos embrionários que permaneciam na região subcutânea. Pelo menos era isso que acontecia nos outros tipos de cistos dermoides.

Atualmente, o cisto pilonidal é considerado uma doença adquirida que pode recidivar. A teoria mais aceita é que a lesão seja provocada por pelos soltos que, por atrito, pressão ou calor, atravessam a pele e se alojam na camada subcutânea. A presença desse corpo estranho, sem nenhuma ligação com os folículos pilosos (estruturas onde nascem os pelos), gera uma reação inflamatória que promove a formação de cistos.

Outra possibilidade é que alterações hormonais e nas glândulas sebáceas, associadas a certas condições adversas, favorecem a manifestação de foliculite, um quadro inflamatório e infeccioso do folículo piloso, que se rompe no tecido subcutâneo, dando lugar à formação de um abscesso pilonidal extremamente doloroso. Em geral, a bactéria responsável pela infecção é o Staphylococcus aureus, um germe que habita normalmente nossa pele.

Resta, ainda, a hipótese de que a origem da inflamação esteja no que chamamos de pelos encravados, fios que se curvam e penetram novamente no folículo piloso onde continuam crescendo, porque não conseguem atravessar as camadas superficiais da pele.

Fatores de risco
Microtraumas de repetição e excesso de pelos mais grossos e encaracolados na região do cóccix, obesidade, sedentarismo, roupas muito justas e falta de higiene são considerados os principais fatores de risco para o desenvolvimento de cistos pilonidais.

Permanecer muito tempo sentado, por exigência profissional ou durante a prática de esportes (ciclismo e equitação, por exemplo) também contribui para a formação de cistos na região sacrococcígea. Essa agravante chamou atenção depois que o número de casos da doença pilonidal cresceu muito entre os soldados americanos que lutavam na Segunda Guerra Mundial e viajavam horas e horas sentados nos bancos de jipes que trepidavam muito por causa dos terrenos irregulares.

 Sintomas
Cistos pequenos sem vestígio de infecção geralmente são assintomáticos, embora apresentem um pequeno orifício, por onde é eliminado um líquido turvo de odor desagradável.

Os sintomas realmente aparecem na fase aguda, quando se forma um nódulo na parte superior do sulco entre as nádegas com sinais típicos de processo inflamatório e infeccioso: dor, rubor, calor, edema e saída de secreção purulenta por um orifício que se abre na pele. À medida que a infecção progride, novos orifícios podem surgir dando origem a fístulas que ajudam a drenar o pus. Dependendo do tamanho do orifício, é possível enxergar os pelos no interior do cisto e retirá-los.

Febre, náuseas e cansaço extremo são outros sintomas possíveis da doença pilonidal.

 Diagnóstico
O diagnóstico da doença pilonidal é clínico. O médico leva em conta a história do paciente, suas queixas e o exame minucioso da região afetada. Não existem testes laboratoriais específicos nem de imagem que ajudem a confirmar o diagnóstico dos cistos e abscessos pilonidais. O hemograma registra, apenas, um aumento na taxa de leucócitos, o que pode acontecer por inúmeras causas diferentes.


 Tratamento
O tratamento do cisto pilonidal varia de acordo com a fase da doença. Paciente com cisto sem nenhum sintoma nem sinal de infecção deve permanecer em observação para avaliar a evolução do quadro.

Quando já houve a formação de abscesso, o procedimento indicado é fazer a drenagem da secreção purulenta através de uma pequena incisão na pele. A intervenção é realizada sob anestesia local, sem necessidade de internação hospitalar. Para alguns pacientes, essa técnica pode representar um caminho para a cura. Infelizmente, nos outros, a doença é recorrente.

Como os antibióticos não produzem o efeito desejado nessa fase, a indicação é cirúrgica. A técnica mais utilizada é a ressecção em cunha do cisto, deixando a ferida aberta, sem pontos, para que a cicatrização ocorra naturalmente, de dentro para fora. Esse método conhecido como “cicatrização por segunda intenção” é o mais recomendado para o tratamento de feridas infectadas. Embora o período de recuperação seja mais longo, o risco de recidivas é muito baixo. Também é possível fechar a ferida com pontos, o que encurta o período de recuperação, mas aumenta o risco de novas crises.

No pós-operatório, é preciso redobrar os cuidados com a ferida. O curativo deve ser trocado todos os dias, o local lavado com soro fisiológico e coberto com gaze.

 Recomendações

As seguintes medidas podem ajudar você a prevenir a formação de cistos pilonidais e a evitar recidivas:

* Não permaneça muito tempo sentado. Levante e caminhe um pouco a cada uma ou duas horas;
* Procure manter o peso ideal para sua estatura e idade;
* Mantenha a região sempre limpa e livre de umidade ou suor;
* Dê preferência a sabonetes antissépticos ao fazer a higiene do local;
* Depile a região especialmente se seus pelos forem mais espessos e encaracolados;
* Evite vestir roupas íntimas de tecido sintético.

Observação: Embora seja uma complicação bastante rara, formas crônicas e não tratadas de cistos pilonidais infectados aumentam o risco de desenvolver carcinoma de células escamosas, um dos tipos de câncer de pele.

05/10/2015

Diagnóstico precoce melhora a resposta ao tratamento


Começou o Outubro Rosa e, junto com ele, as diversas ações realizadas pelo Ministério da Saúde, órgãos e entidades que conscientizam durante esses 31 dias sobre a importância da detecção precoce do câncer de mama. 

O Outubro Rosa foi criado no início da década de 90, mesma época em que o símbolo da prevenção ao câncer de mama, o laço cor-de-rosa, foi lançado pela Fundação Susan G. Komen for the Cure e distribuído aos participantes da primeira Corrida pela Cura, realizada em Nova York (EUA) e, desde então, promovido anualmente em diversos países.

Mais comum entre as mulheres, a maioria dos casos de câncer de mama tem sido diagnosticados já em estágios avançados. No Brasil, as taxas de mortalidade pela enfermidade continuam elevadas, exigindo cada vez mais atenção à necessidade do diagnóstico precoce, que, aliado ao tratamento, possibilita melhores resultados.

A doença é causada pela multiplicação anormal das células da mama, que formam um tumor maligno. Os sintomas consistem em alterações na pele que recobre a mama, como abaulamentos ou retrações, inclusive no mamilo, ou aspecto semelhante à casca de laranja. Secreção no mamilo e nódulo (caroço) endurecido e fixo no seio, geralmente indolor, também são sinais de alerta. Podem também surgir nódulos palpáveis na axila e no pescoço.

Detecção precoce – Segundo o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), uma das formas detecção precoce do câncer de mama é a mamografia. Para o controle do câncer de mama, é recomendado que as mulheres entre 50 e 69 anos realizem mamografia a cada dois anos, mesmo que não tenham alterações.

As mulheres devem ter suas mamas examinadas pelo médico(a) ou enfermeiro(a) como parte de seu exame físico. No exame clínico das mamas o profissional observa e apalpa as mamas da paciente na busca de nódulos ou outras alterações . 

A mamografia é a radiografia da mama capaz de mostrar lesões em fase inicial e até muito pequenas (milímetros) e assim, permite a detecção precoce do câncer de mama. Segundo o INCA, o exame é realizado em um aparelho de raio X apropriado, o mamógrafo. Nesse aparelho, a mama é comprimida de forma a fornecer melhores imagens, e, portanto, melhor capacidade de diagnóstico. O desconforto provocado é discreto e suportável.

Fatores de risco – Entre os fatores de risco de câncer de mama estão a primeira menstruação precoce (antes dos 12 anos), a menopausa tardia (após os 50 anos), a primeira gravidez após os 30 anos ou não ter tido filhos e ter feito reposição hormonal pós-menopausa, principalmente por mais de cinco anos. O sedentarismo, excesso de peso, consumo de bebida alcoólica e exposição frequente a radiações ionizantes também aumentam o risco de desenvolver a doença.

A hereditariedade é responsável por 10% do total de casos. Mulheres com história familiar de câncer de mama e ovário, especialmente se uma ou mais parentes de primeiro grau (mãe ou irmãs) foram acometidas antes dos 50 anos apresentam maior risco de desenvolver a doença. A mulher que possui um desses fatores genéticos tem risco elevado para câncer de mama. É recomendado que essa mulher converse com o médico para avaliação do risco e conduta a ser seguida.

A presença de um ou mais desses fatores de risco não significa que a mulher terá necessariamente câncer de mama. As mulheres, de todas as idades, devem ser orientadas a olhar, palpar e sentir suas mamas no dia a dia para reconhecer suas variações naturais e identificar as alterações suspeitas. Em caso de alterações persistentes, procure uma unidade de saúde.

Participe desta iniciativa e compartilhe informações sobre o câncer de mama que estão disponíveis nas páginas do Facebook e Twitter do Ministério da Saúde.


19/01/2014

Infarto Agudo do Miocárdio: Fatores de Risco


Drauzio - Que fatores aumentam o risco de infarto do miocárdio?

Edson Stefanini – O infarto do miocárdio é uma doença multifatorial, ou seja, uma doença provocada por diversos fatores que agem conjunta e simultaneamente. Entre eles, destacam-se:

1) hereditariedade: se na família existirem parentes próximos que tiveram infarto, angina ou foram operados do coração antes dos 60 anos, é preciso estar atento, porque aspectos genéticos são relevantes para o desenvolvimento da doença;

2) pressão arterial: controlar a pressão arterial e mantê-la em níveis adequados é fundamental para prevenir doenças cardíacas. Considera-se pressão arterial normal a que se encontra entre a máxima de 12 e a mínima de 8;


3) diabetes: o controle da glicemia (nível de açúcar no sangue) é indispensável, especialmente se a pessoa já for portadora da doença. Os diabéticos, às vezes, sofrem infartos subclínicos, que não provocam o sintoma convencional de dor no peito. Nesses casos, mal-estar, sudorese, náuseas e até vômitos são atribuídos a algum problema de menor importância;

4) colesterol: o controle do metabolismo das gorduras tem de ser sistemático e permanente. Existem medicamentos eficazes que ajudam manter o valor do colesterol total abaixo de 200 e elevar o nível de sua fração protetora, o HDL, conhecido como o bom colesterol. Exercícios físicos favorecem o aumento do HDL; o cigarro o diminui;

5) triglicérides: em geral, os triglicérides sobem quando há aumento da ingestão de carboidratos;

6) tabagismo: a nicotina é um dos mais agressivos fatores de risco das doenças cardiovasculares. Ficar longe do cigarro é a única opção para quem quer e precisa prevenir-se.


*Metabolismo do Colesterol*

Drauzio - Conheci um homem fortíssimo, com mais de 60 anos, que praticava halterofilismo desde menino. Seu colesterol era bem baixo: 138, se não me engano. Numa consulta, perguntou se poderia continuar comendo ovos. Não vi nenhum empecilho. Seu colesterol era seguidamente controlado e nunca tinha apresentado alterações. Por mera curiosidade, quis saber quantos ovos comia e fiquei atônito com a resposta: uma dúzia por dia, porque faço muito exercício e a proteína dos ovos me ajuda a manter a musculatura. Soube depois que, desde os 25 anos, mantinha essa dieta sem reflexo algum nos valores do colesterol. Fato semelhante ocorre com algumas pessoas obesas. No entanto, encontrei gente que apresenta aumento do colesterol se comer um único ovo ou engordar um pouquinho. O que demonstram casos como esses?

Edson Stefanini – Nem sempre é verdadeira a ideia de que quem come muita carne, muita gordura, muito ovo, engorda ou tem colesterol elevado. Pessoas, cujo fígado metabolize bem esse excesso de gordura, não apresentam alterações significativas nos níveis do colesterol no sangue. Entretanto, existem outras que, apesar da dieta restrita e equilibrada, possuem colesterol elevado, porque suas funções hepáticas são desfavoráveis ao metabolismo das gorduras. Essas precisam ser medicadas. É importante deixar isso bem claro, pois é falsa a ideia de que quem é magro, faz exercícios e observa uma dieta pobre em gorduras não precisa avaliar a dosagem do colesterol no sangue.


*Estresse*

Drauzio - O estresse também é indicado como um dos fatores responsáveis pelo infarto. No entanto, como não ficar estressado se vivemos numa cidade caótica, trabalhando mais de 12 horas por dia?

Edson Stefanini – Inúmeras são as manifestações orgânicas provocadas pelo estresse. Além de úlcera, hipertensão, queda de cabelo, o estresse pode aumentar a probabilidade de manifestação das doenças coronarianas, desde que associado a outros fatores de risco. Muitos me perguntam se estresse pode causar morte súbita por infarto. De certa forma, ele pode ser o empurrãozinho que faltava. Se já existia predisposição anterior em virtude da existência dos outros fatores, estresse muito violento pode ser fatal. Por isso, como medida preventiva, a orientação dada aos pacientes é evitar situações que habitualmente provoquem tensão. Não é fácil, mas é possível. Organizar melhor os horários, tentar resolver os problemas pendentes, deixando de lado os que não conseguimos resolver, talvez seja um bom começo.

Drauzio - Diante de uma pessoa evidentemente estressada, quantas vezes não recomendei que tirasse férias, se afastasse dos problemas, procurasse viver mais tranquila. Recomendei o que não faço, porque é difícil ficar indiferente ao que se passa ao redor. Entretanto, o estresse é um mecanismo criado pela natureza visando à sobrevivência e a teoria da evolução explica por que não desapareceu. Quem não se estressava ficava olhando o leão aproximar-se e era comido por ele. Hoje, a ameaça não se reduz a momentos esparsos de grande tensão. Transformou-se no cerco diário representado por contas a pagar, promissórias a serem quitadas, cara feia do chefe, desentendimentos familiares e violência urbana. Esse estado de pressão permanente acelera o pulso, a frequência cardíaca e piora a irrigação do miocárdio. Que peso tem o exercício físico para reduzir o estresse já que não se consegue evitar as atribulações do dia a dia?

Edson Stefanini – A experiência clínica tem demonstrado as vantagens da atividade física diária no controle do nível de estresse. Não há necessidade de ser um exercício intenso como correr a maratona. Basta meia hora por dia, pelo menos quatro vezes por semana, e o nível de tensão cai consideravelmente. Os benefícios não são apenas físicos. Concomitantemente, ocorre um relaxamento psíquico e emocional que faz as pessoas se sentirem com mais pique para encarar o dia a dia.


Além disso, estudos comprovam que a probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares é menor em quem se exercita regularmente. Em se tratando de hipertensos, por exemplo, a atividade física ajuda a controlar a pressão arterial. Esses pacientes, porém, precisam estar sob supervisão médica. Se o indivíduo já apresenta fatores de risco coronarianos, não pode sair por aí correndo ou entrar numa academia sem avaliação prévia de suas condições orgânicas. É preciso verificar a pressão arterial, fazer eletrocardiograma e teste ergométrico a fim de analisar sua performance quando submetido a esforço. Alterações importantes no eletrocardiograma e na pressão arterial podem significar deficiência coronariana ou cardiopatia isquêmica. Os portadores dessas patologias exigem orientação meticulosa antes de aderirem ao programa de condicionamento físico essencial ao tratamento. Exercícios são indicados, também, para quem sofreu infarto agudo do miocárdio, não só como parte do processo de reabilitação, mas como prescrição terapêutica durante o acompanhamento clínico posterior, que precisa ser mantido indefinidamente.

*Tabagismo*

Drauzio - Não se pode contestar que o cigarro está incluído entre os fatores de risco das doenças cardíacas. Muitos fumantes jovens (chamo de jovens os que estão entre 35 e 50 anos) têm infarto do miocárdio. Que peso tem o cigarro nessa fatalidade?

Edson Stefanini – O tabagismo é considerado um dos mais importantes fatores de risco do infarto. Por isso, procura-se combater, com veemência, o cigarro, principalmente nas pessoas que além de fumantes apresentam outros fatores de risco para as doenças coronarianas. Não podemos mudar de pais nem as características que deles herdamos, mas podemos afastar os danos que o fumo traz consigo. A medicina moderna já oferece alguns recursos para combater a dependência de nicotina.

Drauzio - Você poderia explicar o que acontece com a coronária quando o fumante dá uma tragada?

Edson Stefanini – O cigarro contribui para a aceleração da aterosclerose e para tornar mais instáveis os quadros de insuficiência coronariana. A nicotina aumenta a frequência cardíaca e a probabilidade de espasmo dos vasos sanguíneos. Aumenta, também, a predisposição da placa aterosclerótica para formar coágulos. Portanto, o risco de o fumante ter infartos e anginas é altíssimo.

Drauzio - Se uma pessoa, que fumou durante 20 anos, deixar de fumar, quanto tempo leva para desaparecerem os efeitos da nicotina sobre o coração?


Edson Stefanini – Os efeitos agudos da nicotina desaparecem logo. Naturalmente o fato de a pessoa ter fumado durante 20 anos deixou sequelas no organismo. Por exemplo, placas ateroscleróticas podem ter-se formado, mas a probabilidade de permanecerem estáveis aumenta muito, se a pessoa deixar de fumar. Por outro lado, se outros fatores de risco estiverem fora de controle, fumar acelera a desestabilização da placa e o aparecimento de quadros agudos coronarianos, como dores no peito, angina, infarto agudo do miocárdio e até morte súbita.

Drauzio - É importante esclarecer que fumam muito não só quem fuma dois ou três maços, mas as pessoas que fumam mais de cinco cigarros por dia. Como podem os médicos auxiliar os pacientes a vencer a dependência do fumo?

Edson Stefanini – Atualmente se procura convencer a pessoa de que não há outra saída a não ser parar de fumar. É frequente ouvirmos, no consultório, que alguém fumava dois maços por dia e que agora fuma um ou outro cigarro. Infelizmente, esse propósito é transitório porque, sem que se dê conta, logo terá voltado a fumar um maço, um maço e meio por dia. Por isso, a solução não admite meios termos. É preciso abandonar de vez o cigarro. Os médicos, além de aconselhamento e orientação psicológica, podem intervir farmacologicamente prescrevendo medicamentos. Existem adesivos de nicotina que ajudam a diminuir os efeitos da síndrome de abstinência. A nicotina é uma droga poderosa que provoca dependência física brutal. Quando o fumante para repentinamente de fumar, por alguns dias pode sentir-se muito mal, ficar ansioso, desesperado mesmo. Por isso, parar de fumar é tão penoso quanto se livrar de qualquer outra dependência química.

Drauzio - É revoltante pensar que o público alvo da publicidade do cigarro é a criança. Se elas soubessem como sofrerão para libertar-se dessa dependência, jamais poriam um cigarro na boca. Toda droga tem sua armadilha; a da nicotina é o primeiro cigarro.

*Prevenção Secundária*

Drauzio - Até este ponto da entrevista falamos mais da prevenção do infarto. Fale um pouco sobre o que devem fazer os pacientes que já tiveram infarto e temem ter outro?

Edson Stefanini – Embora fosse maravilhoso, é utópico imaginar que poderíamos detectar e combater os fatores de risco na população como um todo. Por isso, a grande batalha do cardiologista concentra-se na prevenção secundária, isto é, no atendimento a pessoas que já tiveram uma doença coronariana – angina, arritmia, infarto do miocárdio – ou fizeram cateterismo. Vencida a fase aguda da doença, elas entram num programa de prevenção secundária, ou seja, identificação e controle de todos os fatores de risco. Se forem fumantes, não têm escolha: precisam parar de fumar.

Hipertensão, diabetes, níveis elevados de colesterol recebem atenção e cuidados específicos. Procura-se orientar esses pacientes em relação ao nível de estresse, pois devem redimensionar as atividades e descobrir uma forma menos desgastante de encarar os problemas do dia a dia.

Pessoas com problemas coronarianos recebem obrigatoriamente um esquema de exercícios físicos que vai desde de um programa sofisticado realizado em academias especializadas na reabilitação de doentes cardiopatas, até os mais simples, como caminhar pelas ruas ou parques. Nos dois casos, porém, o acompanhamento médico é indispensável para estabelecer o nível de esforço adequado para cada uma.


Basicamente é esse o programa a que se submete uma pessoa que já sofreu infarto agudo do miocárdio. Observá-lo é fundamental, pois o controle dos fatores de risco pode prevenir um novo acidente vascular. Além disso, também previne sintomas de angina que podem requerer hospitalização, angioplastias ou cirurgias de revascularização.

Drauzio - Muita gente toma o primeiro infarto como aviso de que algo grave pode acontecer a qualquer momento. Na sua experiência como cardiologista, a vida dessa gente muda radicalmente para melhor ou, como suicidas, muitos repetem os mesmos erros?

Edson Stefanini – Temos alguns exemplos de pessoas estressadas que viviam num redemoinho. Trabalhavam em quatro ou cinco lugares diferentes, fumavam muito, estavam acima do peso, não controlavam os níveis de colesterol nem do açúcar e tinham antecedentes familiares de infarto do miocárdio. Depois do primeiro infarto, felizmente pequeno e com sequelas menos significativas, essas pessoas realmente mudaram de vida. Passaram a controlar os fatores de risco, diminuíram o ritmo das atividades, dedicaram pelo menos duas horas por dia ao lazer e transformaram-se em símbolos do consultório. O problema é que nem sempre é assim. Muitas, passado o susto inicial, retomam os hábitos antigos e, na maioria das vezes, arcam com consequências que poderiam ser evitadas.

Drauzio - Certa vez, perguntei, ao dr. Sérgio Simon, médico cancerologista, se pudesse escolher, preferiria morrer de câncer ou de infarto. Dr. Sérgio respondeu que preferia morrer de câncer. E você, como escolheria morrer?

Edson Stefanini – Eu preferiria não escolher nenhuma das alternativas. Todavia, tenho a impressão de que a morte súbita é uma forma menos sofrida de morrer. Uma vez obrigado a escolher, acho que seria essa minha opção.

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